eptv.com - urblog07/05/2008
Dayz e capa do livro
17:11 - Admiradora e pesquisadora de vários aspectos
culturais de Campinas, Dayz Peixoto Fonseca mergulhou na história de quem ela
chama de “primeiro artista, primeiro intelectual e primeiro cientista” da
cidade. Desta viagem para quase dois séculos atrás surgiu “O Viajante Hércules
Florence – águas, guanás e guaranás”, lançado pela Pontes Editores. Na obra,
Dayz revê o trabalho de Florence como desenhista da Expedição Langsdorff, uma
empreitada a partir de 1825 que começou com uma grande história de amor à
primeira vista e terminou aos trancos e barrancos depois de percorrer de barco
o território desconhecido do Mato Grosso à Amazônia.
A obra não quer acrescentar ou retificar qualquer coisa
da expedição, mas destacar o trabalho artístico no registro científico de
gentes, acidentes geográficos, árvores e animais feitos pelo
“franco-campineiro”. Dayz pesquisou no diário de bordo escrito por Florence, em
seus manuscritos guardados por herdeiros e em várias outras publicações sobre a
empreitada.
Ela própria apaixonada pela paisagem brasileira de
séculos atrás, a pesquisadora se emociona com a exuberância descrita nos traços
precisos do francês que chegou ao Brasil graças ao desejo de conhecer o mundo,
empolgado com as narrativas sobre viagens a lugares desconhecidos da Europa,
que foram sucessos em livros desde os relatos de Marco Polo muito tempo antes.
“Eu quis fazer um trabalho de divulgação do Brasil do século 19. Gosto muito da
paisagem brasileira que ele descreveu. Que privilégio ele teve em conhecer o
Brasil daquela época”, explica Dayz. Para ela, as obras publicadas até hoje
“não tiveram um vínculo com a cultura em geral.”
Arte
Na obra, Dayz busca um relato leve e sensorial – como
explica - para apresentar cerca de cem ilustrações de Florence. Além da
diagramação e formatos de livro de arte, algumas páginas receberam cores que
reforçam o assunto tratado – um exemplo, é quando apresenta a palmeira açaí,
uma das paixões de Florence, cujo bordô de fundo remete à cor da fruta. “Tentei
fazer o livro bastante sensorial. Eu quis passar isso, a questão dos sentidos”,
diz a pesquisadora.
Hoje, boa parte dessa história e seus envolvidos batizam
ruas, avenidas e prédios em Campinas – Álvares Machado e Carolina Florence, por
exemplo. Para Dayz, outro objetivo do livro é resgatar a memória deste gênio
perdido na selva e sensibilizar autoridades e estudiosos para a necessidade de
um tratamento museológico para o legado de Florence. “É necessário haver um
projeto ambicioso para que tudo seja preservado e recuperado”, defende a
pesquisadora.
Romance
A ligação de Florence com a região começou em Porto
Feliz, de onde partiu a Expedição Langsdorff. Hospedado na casa do médico
Francisco Álvares Machado, Florence arrebatou o coração da filha Maria Angélica,
que tinha casamento marcado com um biólogo – este, ao perceber a queda da noiva
pelo francês, desistiu e se matou. Casaram e tiveram 13 filhos – Florence se
casaria novamente com Carolina Krug, irmã de Jorge Krug, alemão que também
batiza rua na cidade.
Além de mostrar a arte, Dayz biografa Florence no livro
e também relaciona suas invenções na parte de cronologia – foram muitas, entre
as mais conhecidas a fotografia, a poligrafia e o “papel inimitável”, à prova
de cópias. Mas apesar da genialidade, “nenhuma invenção avançou. Eu suponho que
é por causa do brasileiro da época, que não tinha visão industrial”, diz Dayz.
Sobre isto, o próprio Florence reclamava achando que, se
estivesse na Europa, já industrializada, suas invenções ganhariam o mundo – na
época, São Paulo contava talvez uns 5 mil habitantes e Campinas, então Vila de
São Carlos, nem chegava a 2 mil. Mas apesar disso, conta Dayz, Florence recusou
convite do governo francês para apresentar sua técnica de fotografia, mais uma
vez, deixando falar mais alto sua paixão pelo Brasil.